Caso Eloá, o retrato do Brasil.

É triste. Não pelas vidas perdidas. Morre, no mundo, uma pessoa de fome a cada 5 segundos. Nem mesmo pela situação: é inevitável que, diante de relações sociais tão complexas, surjam problemas relacionados a amor, ódio e cárcere privado. É triste por não termos preparo para resolvermos problemas e por encararmos como uma forma de monetarização da vida. As normas de conduta geradas pelas instituições sociais devem ditar as regras da vida humana e, sobretudo, darem resolução aos litígios. A Religião, o Direito, a Política, a Mídia e a Família são fontes de ensino que prendem o homem a uma imagem parcial do mundo para promover a possibilidade de permanência da lei social e das regras de conduta. O enfraquecimento que diariamente presenciamos dessas normas de conduta e, conseqüentemente, das instituições de controle social, enfraquecem – e são enfraquecidos por – os homens e seus valores.

Isso explica a situação extrema ao se seqüestrar, manter em cárcere, violentar e matar. Explica também a irresponsabilidade dos programas sensacionalistas que exploram cada segundo da desgraça, intrometendo-se nas negociações policiais e comunicando-se ilegalmente com o seqüestrador, para fazer merchandising de máquinas fotográficas que, ironicamente, alimentam e incentivam a sede social de exibicionismo, futilidade e fofoca.

A fraqueza das instituições, que reverte os valores humanos, também explica o despreparo policial, em devolver ao cenário de um seqüestro um refém civilmente incapaz, enquanto ali próximo as polícias se degladiavam em via pública, infringindo seu princípio básico de proteção.

O auge do problema é que esse fracasso das instâncias que deveriam tutelar o interesse social advém da própria população, já que seus representantes são reflexos de um povo mesquinho e egoísta. Eles são o que somos, e não poderiam ser diferentes. Assim como somos nós, que consumimos a exploração irresponsável dos programas sensacionalistas e corrompemos policiais para não respondermos às nossas infrações.

Nós que, apesar de continuarmos furando fila, desacreditamos que o seqüestrador fique preso e cumpra pelos diversos crimes cometidos durante a semana. Não devemos transferir a culpa para imprensa, para a polícia, para os políticos ou para o seqüestrador. A culpa é nossa e a mudança deve começar por nós: revendo nossos valores, repensando nossas ações e analisando as consequências de nossas atividades, que incentivam a exploração da desgraça, mantém a desordem pública e alimentam os vícios, a intolerância e o caos.

Esse caso relaciona, de forma óbvia, os diversos setores falidos de uma sociedade que se auto-consome por dinheiro, status e ibope. Se esse cárcere privado exigisse um resgate financeiro, estabelecendo, enfim, a monetarização da vida, talvez tudo tivesse se resolvido pacificamente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: