Diferença.

A necessidade de transformar o outro em um ser estranho e reduzir ainda mais seu grupo de pessoas normais é o jeito mais fácil de desconsiderar os nossos erros. E daí que eu tenho os peitos caídos, se ela tem celulites horríveis? Quanto mais esquisito for o outro, menos nós parecemos esquisitos. Essa é a teoria quando se coloca uma foto com um amigo feio no orkut. A mulherada prestaria mais atenção em você, já que ele tem aquele nariz torto escorrendo. O outro ser pior, nem que seja no par ou ímpar, é um grande conforto. Ou não é?
 

Ontem, por exemplo, acompanhei uma discussão de dois torcedores do mesmo time – brasileiro, nordestino, alagoano, maceioense – o CRB. Você deve bem saber que a torcida do CRB não é lá muito grande. Mas não, eles não podiam, em hipótese alguma, celebrar essa tamanha coincidência de serem fãs do mesmo clube. Estavam brigando, já que um deles também torcia por outro time, um paulista. A grande semelhança em serem apaixonados pela mesma equipe não importava, a pequena diferença gerou rivalidade contra o bambi.

 
Outros são os vegetarianos, aqueles seres humanos que comem vegetais. Mas uns comem vegetais com ovos. É aí que mora o problema, porque vão ser odiados pelos que só comem vegetais. Já que esses têm pena dos animais, neste caso, dos cus das galinhas. A cloaca da galinha, para eles, é mais importante que o direito do seu colega vegetariano escolher o que comer no almoço.

 
E os cristãos? Eles amam o mesmo deus, o mesmo filho desse deus, lêem o mesmo livro, seguem os mesmos mandamentos étnicos e almejam o mesmo paraíso eterno, mas se dividem quando o assunto é “esse teu santo é uma imagem, e quem cultua imagem é filho do tinhoso”. E eles não conseguem nem se respeitar: enquanto um chuta uma santa daqui o outro chama de charlatão megalomaníaco de lá.
 

Mas, no final, todos eles, são contra a segregação social, não admitem o preconceito e defendem veementemente as cotas raciais nas universidade. Afinal o respeito às diferenças é uma bandeira moral que deve ser levantada. Todos acham um absurdo a guerra entre a Palestina e Israel, a maioria chora quando ouve falar em holocausto e, quando o assunto é Apartheid, foi o maior absurdo da história da humanidade. Mas se o Mandela for torcedor misto, rezar para um pedaço de pedra e gostar de omelete vai se ver com eles!
 

A diferença, distante, é retrato. Mas perto, é espelho. E aqueles espelhos de hotel, com uma luz forte e  lente de aumento, que deixa tudo mais claro, maior e mais feio.

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